O ACARAJÉ DE JESUS
Joãozinho Ribeiro comenta sobre o fundamentalismo de alguns lideres religiosos pelo dinheiro dos fíeis.
- 03/03/2010
Em Brasília, nesta semana, tive a grata satisfação de participar da solenidade de abertura de duas Pré-Conferências Setoriais de Cultura: do Audiovisual e de Cultura Afro-Brasileira. Nos dois eventos encontrei personalidades culturais maranhenses pelas quais mantenho uma inestimável consideração – professor Isidoro, Jeovah França, Elizândra Rocha, Mavi Simões, Tourinho e Lamartine (Negro Lamar). Todos visceralmente antenados com o temário submetido às discussões, disputando as indicações para a nova composição do Conselho Nacional de Políticas Culturais e uma vaga de delegado à II Conferência Nacional de Cultura.
De passagem pela Pré-Conferência da Cultura Afro-Brasileira, deparei-me com uma situação bastante preocupante, exposta por uma professora da Universidade Federal da Bahia, dando conta da manifestação de intolerância e do trato desrespeitoso com as religiões de matrizes africanas, além da tentativa de deturpação das raízes identitárias do povo negro daquele estado. Como se não bastasse o terrível processo do cativeiro escravocrata a que foram submetidos por longos anos os nossos ancestrais.
A professora denunciava a tentativa de igrejas evangélicas, mas precisamente de membros da Igreja Universal do Reino de Deus, de demonizar a prática das baianas vendedoras de acarajé – reconhecidas hoje como Patrimônio Cultural Brasileiro – e de criarem um novo modelo de negócios intitulado “Acarajé de Jesus”, valendo-se desta prática cultural para auferir lucros em nome de Cristo. Antes já haviam enveredado pelo campo da tal “capoeira gospel”, utilizando desta manifestação tradicional para cooptar novos adeptos aos seus cultos religiosos, se contrapondo aos vínculos simbólicos das nossas ancestralidades.
A laicidade do Estado Brasileiro é um dos maiores valores estatuídos em nossa Constituição Federal, como cláusula que coloca o nosso país a frente de muitos outros onde o fundamentalismo religioso tem escancarado as portas para guerras fratricidas e genocídios étnicos de todas as montas. A relação promíscua entre Estado e Religião foi responsável no passado por regimes de verdadeiros apartheids raciais e de intolerâncias truculentas alimentadas, literalmente, a ferro e a fogo.
Atualmente, algumas tentativas apoiadas em interesses políticos e eleitorais escusos procuram converter esta relação entre estado e religião conforme as circunstâncias e conveniências que melhor proveito lhes ofereça. Em Brasília, a oração da propina de deputados distritais agradecendo a Deus o resultado obtido com os recursos públicos do mensalão do Arruda é um caso exemplar desta relação. No Maranhão, dinheiro público apoiando retiros religiosos, não interessa se católicos ou evangélicos, sob o manto de manifestações culturais, abre um precedente perigosíssimo para disfarçar uma vedação expressa no artigo 19 da Constituição Federal, assim como qualquer outro tipo de apoio a celebridades da indústria fonográfica, como os padres cantores Marcelo e Fábio Melo, ou a cantora evangélica Aline Barros, que faturam milhões sobre a vendagem de milhares de cópias de CDs, igual a qualquer outro artista do mundo da música.
Não tenho nada contra o sucesso de cada um deles, até porque os seus talentos na área são reconhecidos por milhões de pessoas pelo Brasil afora. Acontece é que, além de fazerem parte de um circuito comercial altamente rentável, por vezes também são agraciados com “apoios” de verbas públicas para os seus eventos, sob as vistas grossas e a leniência dos poderes constituídos. Comercialmente, merecem tratamento análogo aquele que é dispensado a qualquer outro entretenimento da mesma natureza.
Parte da minha infância e adolescência passei estudando em colégio dirigido por família de evangélicos. A estes devo muito da minha formação, do gosto pelos estudos e respeito às pessoas. Tive colegas de infância com quem compartilhei bons tempos de brincadeiras e recreação, oriundos de famílias protestantes; alguns se tornaram respeitáveis líderes de suas igrejas e são reconhecidos hoje pelas suas posturas éticas e pelo compromisso com a fé e a justiça. Muitos são profissionais destacados na sociedade maranhense, bem sucedidos, sem nunca terem precisado de relações promíscuas entre suas devoções religiosas e o estado para justificarem suas respectivas ascensões.
Uma destas honoráveis figuras é a do pastor Capitulino Lázaro de Amorim, que junto com D. Josefa, sua esposa, e sua filha, Ester, jamais deixarão de habitar a minha memória e de merecer os meus sinceros agradecimentos por tudo que me legaram de ensinamentos e de lições de vida. Da Assembléia de Deus, das Igrejas Batista, Adventista e de algumas outras ainda mantenho boas recordações dos estreitos laços de amizade construídos com muitos de seus respeitáveis membros.
Hoje, quando vejo falsos representantes destas instituições religiosas maculando a imagem e o nome desse legado que não lhes pertence, resultante da abnegação dos seus pregadores pioneiros que nunca se serviram de seus respectivos ofícios para obterem proveitos econômicos, sinto uma grande indignação com o desrespeito pela memória destas pessoas que merecem de todos nós o mais profundo reconhecimento.



