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PIXAÇÃO E ARTE: 1ª Bienal Internacional de Arte de Rua


São Paulo vai sediar a 1ª Bienal Internacional de Arte de Rua, com obras de pixadores, um tema polêmico e pouco compreendido pela população.
- 10/03/2010

Por Juliana Sada

A grafia com “x” se refere à pichação contemporânea, que é alvo desta matéria. Fruto de um provável erro de escrita, essa grafia é reivindicada pelos pixadores para se diferenciar das pichações políticas (mais comuns durante a ditadura), do movimento punk e de propaganda.

Acada noite, grupos de jovens saem da periferia em direção ao centro da cidade.
Assustam pela agressividade da escrita, pela impossibilidade de compreensão, pela proximidade que chegam às janelas de lares que se consideravam protegidos e pela capacidade de subverter sistemas de segurança. Nada levam, só deixam sua marca.

Tratada sempre como vandalismo, a pixação resolveu invadir o circuito de arte para dizer que esse é seu lugar – queiram ou não. A partir da iniciativa de um pequeno grupo de pixadores que adotou a concepção de pixo como intervenção estética, ocorreu uma série de ações que tinha como objetivo questionar a arte contemporânea e cobrar reconhecimento.

Presente em São Paulo há cerca de 30 anos e com uma quantidade de intervenções enorme, pode se dizer que a pixação é onipresente. No entanto, os debates acerca de seus significados e causas são escassos. Tida como um problema social, crime previsto no código penal, ela é reflexo da aguda desigualdade social da cidade mais rica do país. O jovem da periferia que sai para pixar carece de infraestrutura onde mora, educação básica, lazer e comumente tem problemas na família – motivos que leva os levam a ter em seus colegas uma segunda família e a pixação como lazer e válvula de escape. De acordo com Choque, fotojornalista que prepara um livro sobre o tema, “os pixadores preferem ser odiados pela sociedade a serem ignorados. É um desespero sem fim”.

Entrando em cena
O cenário mudou em 2008, quando ocorreram ataques de pixadores a instituições de arte, gerando ampla repercussão na mídia. O estranhamento e o medo que a prática causa na maioria da sociedade foram as armas utilizadas para despertar o debate sobre a intervenção. “Se não chocar, o protesto não tem o mesmo impacto”, explica Cripta Djan, pixador há 13 anos e um dos mentores das ações: “A pixação em sí já choca, e usá-la junto com protesto é uma combinação perfeita. Provamos isso ao virarmos pauta nacional.”

Os alvos das intervenções foram o Centro Universitário Belas Artes, a Galeria Choque Cultural e a Bienal de Arte de São Paulo. Antes das ações, uma convocação foi distribuída nos points (locais de encontro de pixadores) pedindo que se resgatasse frases de protesto. No convite, lia-se a célebre frase “arte como crime, crime como arte” do escritor estadunidense Hakim Bey. Foi assim que, em média, 40 jovens compareceram e invadiram as instituições culturais, pixando o máximo possível.

Para Sérgio Franco, sociólogo com mestrado pela Faculdade de Urbanismo e Arquitetura da USP, as ações foram muito significativas, uma vez que atacaram “os três campos que definem o que pode ser considerado arte e garantem a sobrevivência do artista: galeria, lugar da comercialização; faculdade, local da formação e Bienal, que é o lugar da consagração”. No caso da Bienal, Franco aponta que a ação dos pixadores recebeu mais atenção da mídia que o próprio evento em si e mobilizou mais setores do que ele poderia ter feito.

Os ataques contaram com o registro de Choque, que explica dois objetivos das ações: “legitimar a pixação de São Paulo como a maior intervenção urbana artística que já existiu neste planeta, em termos sócio-políticos e de abrangência espacial” e “mostrar como os modelos de instituições artísticas brasileiras estão ultrapassados”. O fotógrafo
compara tais espaços com museus “que vivem somente do passado” e que estão “em descompasso com a realidade do país e por isso não são mais capazes de reconhecer novos tipos de expressões artísticas e nem de analisar seus contextos”. Como prova disso, aponta a reação das instituições “ao entrarem em contato com uma intervenção artística que não compreendem”.

Nos três casos, as instituições moveram ações contra os pixadores, todas ainda em aberto na Justiça. A Belas Artes expulsou Rafael Pixobomb, estudante que estava envolvido no ataque e tido como o principal mentor. A ação fazia parte do seu trabalho de conclusão de curso. Durante a intervenção da Bienal, apenas Caroline Pivetta foi presa, ficou encarcerada por 52 dias – o período mais longo que um pixador ficou detido
no país – e agora aguarda julgamento em liberdade. Tanto Rafael quanto Caroline não falam à imprensa, por orientação de seus advogados.

Pixo-arte
As intervenções ocorridas no ano de 2008 não são a primeira tentativa de legitimar o pixo enquanto arte, mas certamente representam o episódio que teve maior repercussão na sociedade, avaliam os próprios pixadores. Entretanto, nem todos eles têm a mesma visão sobre o assunto. A intervenção feita na cidade não tem pretensões artísticas. Os pixadores são movidos pela adrenalina da transgressão e pela disputa de espaço na cidade.

Para Djan, “a verdadeira arte tem que ser feita de coração, sem pretensão financeira e com o papel de transgredir, de contestar”. Sua visão vai ao encontro da visão de Mundano, grafiteiro conhecido por frases de protesto pela cidade, para quem “já faz muitos anos que o concreto virou suporte para uma nova modalidade de pintura” e crê que há décadas não surge um “movimento artístico tão forte, original e nacional”. Assim como Djan, Mundano cobra uma postura dos artistas que atualmente “fazem pouco ou nada pelo bem coletivo”.

Ainda que nem todos os pixadores compartilhem tal concepção sobre arte e pixo o que
Djan atribui a uma limitação no repertório cultura desses jovens um manifesto lançado por um grupo de pixadores esclarece: “de tudo que estudamos até hoje sobre arte, a melhor definição que escutamos veio da boca de um maloqueiro: arte é nada mais nada menos que um diálogo transposto para um suporte físico” e adiciona: “na atual configuração social, a verdadeira manifestação artística é aquela que é em prol do social, que retrata a experiência dos excluídos, uma experiência coletiva que atualmente é global”.

O diálogo desenvolvido pela pixação é fechado e sua compreensão só é possível por membros do movimento, que além de entenderem o que se escreve, são capazes de identificar o autor. Choque chama atenção para a tipografia criada por eles, que considera “muito original, sofisticada, de complexo entendimento e, acima de tudo, marginal”, tendo como autores jovens “que não possuem um repertório de conhecimento vasto e muito menos tiveram educação formal”. Na gênese
dessa criação, estão trabalhos feitos nos anos 80 com nomes de bandas de heavy metal e punk, que, por sua vez, utilizavam caracteres criados a partir do alfabeto rúnico dos povos bárbaros europeus.

“É intrigante pensar que esta escrita de milhares de anos atrás ressurgiu aqui em São Paulo, através de seus próprios povos bárbaros: os pixadores”, comenta Choque. A escrita chega a ser incompreensível para quem está de fora, mas Djan conta um caso inverso: um pixador que é analfabeto mas que escreve e lê o pixo.

A classificação da iniciativa como manifestação artística causa estranhamento na maioria das pessoas, uma vez que é comumente associada ao vandalismo. Entretanto, já atrai atenção de designers gráficos pela complexidade da tipografia criada, de artistas plásticos e de interessados em arte de rua – campo em geral monopolizado pelo
graffiti. Em 2009, a Fundação Cartier, de Paris, fez uma retrospectiva do graffiti mundial e abriu espaço para a pixação paulistana – inclusive com intervenções de Djan nas paredes. No final deste ano acontecerá em São Paulo a 1ª Bienal Internacional
de Arte de Rua de São Paulo, com a participação de pixadores como Pinguim do grupo 8º Batalhão, Tatei do Túmulos e Ivan do Trolhas. Sob a coordenação do artista plástico Rui Amaral, um grupo de oito artistas de rua formarão a curadoria da Bienal, que terá exposição no Museu de Arte Contemporânea e intervenções na cidade, além de oficinas, debates e exposição de vídeos.

Linguagem própria

A resistência da sociedade e de grande parte do meio artístico à pixação é considerada por Sérgio Franco fundamental para romper paradigmas e estabelecer um novo dilema: “sem essa insatisfação, ela não teria capacidade de ser uma ruptura [na arte]”. Para o estudioso, a pixação é a possibilidade na história da arte ocidental do povo ser autor, criando uma linguagem própria. Entretanto, ele aponta que é necessário que surja um sujeito que venha da pixação, agregue capital cultural para elaborar um projeto autoral e se insira nos debates que ocorrem dentro do meio artístico. Franco aponta que, até onde tem conhecimento, Rafael Pixobomb é o único que possui um projeto e por isso tem condições de dar um passo em relação a tudo que foi feito e estabelecer um marco.

A possibilidade do pixador se tornar um artista reconhecido traz incertezas para quem acompanha a questão. O pixo para ser reconhecido enquanto tal, se associa a um determinado universo, e, se estivesse dentro do museu ou galeria, estaria descolado de seu contexto. A iniciativa envolve uma série de características: “rolês” (saídas) pela noite para pixar; disputa por espaço na cidade; conduta, em especial o respeito, que devem seguir; grupos que se formam para pixar; points e festas onde se reúnem; e, sobretudo, o caráter transgressor da prática. Mundano resume: “graffiti e pixo é só ilegal na rua”, fora disso é outra coisa. Franco crê que “uma vez dentro do circuito de arte, não seria mais um pixador, e sim alguém que se apropriou daquele repertório para criar algo novo”. Entrar no meio artístico, para Djan, é algo muito perigoso pelo risco de cooptação. “Os pixadores devem ter postura, não se vender para conservar sua essência e devem usar o pixo para contestar sempre”.

Juliana Sada é jornalista
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